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1º webinar do Fórum FNE 2020 sobre formação contínua – A educação é sempre uma obra inacabada

O primeiro de cinco webinars do Fórum FNE 2020 decorreu em 2 de novembro com o tema “A Formação de professores – inicial, contínua especializada; da lógica original do ECD às sucessivas mudanças introduzidas/aplicadas e o desafio para o futuro”, tendo como oradores convidados Rui Eduardo Trindade Fernandes (Presidente do Conselho Científico-Pedagógico da Formação Contínua – CCPFC) e José Sales (Vice-Reitor para o Ensino, Formação e Organização Académica da Universidade Aberta – UA), moderados por Pedro Barreiros (Vice-Presidente da Associação para a Formação e Investigação em Educação e Trabalho – AFIET) e Paulo Fernandes (Secretário Executivo da FNE).

E foi com elogios da parte de Rui Trindade que esta iniciativa começou. Elogios à FNE por dar visibilidade ao tema da Formação, e desta forma “cumprir um papel sindical que é um claro sinal de esperança para um futuro melhor nesta área”, e um elogio aos educadores e professores portugueses: “O país tem uma dívida para com os professores portugueses. Temos muita sorte em ter os professores que temos”, realçou.

O Presidente do CCPFC começou então por direcionar a sua apresentação sobre a “Reinvenção da profissão docente e formação de professores” para aquilo que considera ser muito necessário levar a debate: Qual é o sentido atual da escola?

Será que podemos continuar a viver numa escola onde se acredita que a realização de aprendizagens significativas só é possível após a realização mecânica de exercícios e da memorização de informação sem significado para os alunos? Será que podemos continuar a viver numa escola onde a avaliação contribui para que o sucesso de uns seja aferido em função do insucesso dos outros? O que fazer? Os professores estarão condenados a ser Sísifos e valerá a pena sermos Ícaro?

Questiona Rui Trindade: terão os professores que passar do papel de instrutores para facilitadores? As atividades na sala de aula têm de ser organizadas em função dos saberes, das necessidades e dos interesses dos alunos? Os conteúdos e a informação devem perder relevância, para que nas escolas se possa promover o desenvolvimento cognitivo e relacional dos alunos, o desenvolvimento de estratégias de pesquisa e de processamento de in formação ou de resolução de problemas? E por fim: Para que as escolas sejam espaços culturalmente significativos só se poderão utilizar metodologias como o Trabalho de Projeto, a Aprendizagem baseada na Resolução de Problemas ou, entre outros, a Abordagem baseada nas Salas de Aula Invertidas?

“Só nos resta ser Gaudís”

Rui Trindade afirma, com autoridade e sem qualquer tipo de hesitação, que nem estamos condenados a ser Sísifos nem valerá a pena sermos Ícaro, restando-nos a condição humana de, como professores e educadores, sermos Gaudís, convocando a figura do famoso arquiteto catalão, autor da Sagrada Família, para demonstrar que “é possível ser Gaudí, porque a educação tem de ser vista sempre como uma obra inacabada”.

Assim sendo, o professor é o construtor de uma catedral inacabada, tendo que compreender três princípios básicos: que a nossa obra será sempre uma obra inacabada, que a nossa obra obriga a aprender a cooperar com outros e compreender que o erro é condição necessária ao desenvolvimento de qualquer obra. Para ilustrar estes princípios, e a ideia de que só nos resta ser Gaudís, Rui Trindade serviu-se da história do Viajante e os Três Pedreiros, para concluir que “com as crianças estamos a fazer uma catedral”.

De seguida, evocando Jean Paul Sartre, o filósofo existencialista francês, Rui Trindade lançou a questão sobre “O que podemos fazer com aquilo que nos deixam ser?”, deixando três recomendações: em primeiro lugar, libertarmo-nos do peso da “Escola das certezas”, que  moldou muitas gerações passadas; libertarmo-nos da saudade do tempo da “Escola das Promessas”, que vingou nos anos 40 e começou a ruir na crise do petróleo dos anos 70, e por fim aprendermos a viver e a trabalhar numa Escola do “tempo das incertezas”, que é a escola dos tempos presentes em que vivemos.

Quanto à formação, o Presidente do CCPFC convoca três exigências, que considera primordiais: o debate em torno do conhecimento profissional docente como problemática nuclear da reflexão sobre os projetos de formação de professores, o isomorfismo pedagógico como condição formativa incontornável e os perfis dos formadores.

Sobre o conhecimento profissional docente, Rui Trindade considera existir uma tensão entre conhecimento académico e científico versus o conhecimento curricular e pedagógico, no âmbito dos projetos de formação contínua. Deste modo, a hipervalorização de um tende a contribuir para a desvalorização de outro, concorrendo para que a profissão docente seja vista em função de um tipo de conhecimento profissional que contribui para que seja percecionada com uma profissão indiferenciada. Nesta perspetiva, a profissão docente constrói-se em função de um tipo de conhecimento que a singulariza como profissão, ainda que contribua para a desvalorizar como uma ação profissional culturalmente complexa.

“A função da escola é de interlocução cultural”

Para este orador, o conhecimento profissional docente tem que conter e estar contido quer no conhecimento académico e científico, quer no conhecimento curricular e pedagógico, neste último caso com as contribuições das neurociências e aprendizagem, da inteligência socioemocional, das metodologias ativas, do mindfulness e do coaching educativo.

Rui Trindade sublinha que o desenvolvimento das competências cognitivas e socioemocionais dos alunos e das estratégias que estes possam aprender a utilizar, no caso da Escola, são condição e produto do modo como os docentes gerem e criam as condições para que os alunos se apropriem do património de informações, instrumentos, procedimentos e atitudes, culturalmente validado e entendido como necessário à afirmação de cada um no mundo e no tempo em que vivemos.

No que respeita ao isomorfismo pedagógico, o orador responde com o ditado “Bem prega Frei Tomás, olha para o que ele diz, não olhes para o que ele faz” e acrescenta que a reflexão sobre o perfil dos formadores no âmbito dos projetos de formação contínua, não poderá ser dissociada nem da abordagem produzida sobre a problemática do conhecimento profissional docente nem da abordagem produzida a propósito do isomorfismo pedagógico.

Em consequência, no cenário em que a profissão docente tende a ser vista como uma profissão indiferenciada, os formadores poderão ser todos os que demonstrarem possuir uma sólida formação académica e científica. A problemática do isomorfismo pedagógico é pois neste caso uma questão menor, tendo em conta a pouca importância que, neste cenário, se atribui à formação curricular e pedagógica.

Porém, numa valorização do conhecimento curricular e pedagógico a problemática do isomorfismo pedagógico é, em princípio, uma questão decisiva, do ponto de vista das finalidades e das dinâmicas de formação que se propõem e se desenvolvem. Rui Trindade nota então que o problema, neste cenário, tem a ver com o facto de se dissociar a formação curricular e pedagógica da formação académica e científica.

Finalmente, e sobre a exigência do perfil dos formadores, Rui Trindade refere que “não se pretende defender que haja um perfil de formador de referência, mas tão somente que, nos seus diferentes perfis, os formadores no âmbito dos projetos de formação, deverão ter em conta os seguintes quatro aspetos: a visão dos formandos contra a visão deficitária dos aprendentes; as experiências de formação que possam constituir-se como referências do trabalho a desenvolver quotidianamente nas escolas; a escola como um espaço de interlocução cultural; e, finalmente, a importância da gestão do conhecimento pedagógico de conteúdo.

Rui Trindade sublinha com assertividade que “a função da escola é de interlocução cultural”, cabendo-lhe o papel e a responsabilidade de “dar os instrumentos para pensar”. O orador terminou a sua apresentação com referências ao “Poema em linha recta”, de Álvaro de Campos (Fernando Pessoa), querendo reafirmar que o professor não pode ter medo de errar.

José Sales: “Uma obrigação e uma necessidade”

Por seu lado, José Sales abriu a sua intervenção afirmando que “os desafios com que nos deparamos agora, já existiam antes da pandemia. E é preciso fazer um ponto de articulação entre há 30 anos e hoje. Mesmo que um docente não seja confrontado com novas realidades, vai acabar por ter de as enfrentar mais tarde. Precisamos de regulamentação para o ensino a distância, por exemplo. E temos uma peça vital: uma plataforma de encontro para ensino/apresentações de ambientes virtuais que oferecem realidades educativas. Mas de nada adianta isto se os professores não conhecerem bem a plataforma ou se não tiverem adquirido competências. Daqui a importância fundamental da formação de docentes”.

Desde março que os docentes portugueses enfrentam a questão do ensino remoto. O ambiente de trabalho está mais perturbado que nunca e “também sabemos que o modelo provocou erros de utilização para aprendizagem futura”. Para o Vice-Reitor para o Ensino, Formação e Organização Académica da UA, o que dá coerência ao desafio de ganhar o futuro “é a formação docente. E isso está bem destacado no artigo 10º do Estatuto da Carreira Docente (ECD). Por isso, é preciso olhar para o que é necessário fazer para envolver os profissionais da educação”.

Segundo José Sales, “o professor deve ter em conta a era em que vive, cabendo-lhe usar as ferramentas que o seu tempo lhe proporciona. Nesta era digital temos de ter ideia de todos os recursos que o mundo nos dá. É uma obrigação e uma necessidade para o professor do século XXI”. A isto acresce todo o bem que a formação oferece aos docentes, pois um profissional interessado e que busca aprimorar-se continuamente, bem como desenvolver as suas competências, tende a demonstrar uma qualidade de ensino superior em sala de aula e isso pode ampliar o seu campo de trabalho.

José Sales sublinha que a formação permite envolver os profissionais em processos de aperfeiçoamento, para que assim possam estar sempre bem informados e atualizados acerca das novidades e tendências educacionais. O educador poderá assim melhorar a sua prática docente e o seu conhecimento profissional e despertar a consciência para o seu papel social dentro e fora da sala de aula. Além do mais, “um docente que não se atualiza é um docente em perda de valências, com mais angústias, mais depressões e mais insatisfações”.

“Sem os professores nada feito”

Para José Sales, educar na era digital é necessariamente diferente e temos de nos convencer que é preciso construir comunidades de aprendizagem adaptadas à nova era e, sobretudo, conhecer/alterar a maneira ou as maneiras como ensinamos. No entanto, com a disponibilidade dos vários agentes educativos em fazerem a sua parte, encarregando-se cada um de trazer o seu contributo, é possível realizar paulatinamente esta construção coletiva em nome de uma educação de futuro, com qualidade e rigor, aperfeiçoando um modelo de ensino que procura atender à diversidade das formações e às diferentes necessidades académico-pedagógicas de estudantes e professores.

O Professor da UA defendeu ainda que “a formação envolve os profissionais em processos de informação e atualização, que têm ainda maior significado quando aplicados na era digital e às novas práticas de ensino a distância ou hibrido, fazendo ainda despertar a consciência para o seu papel social dentro e fora da sala de aula. É possível assim realizar uma construção coletiva em nome de uma educação com futuro, com qualidade e rigor, aperfeiçoando um modelo de ensino que atenda à diversidade de formações”.

Após as apresentações dos dois oradores convidados, o moderador Paulo Fernandes lançou algumas questões ligadas à forma de alcançar o conhecimento profissional docente, à possível criação de um plano nacional de formação e se o novo ambiente, que se vive nos dias que correm nas escolas, não exige um novo perfil de docente.

Quanto a estas questões, Rui Trindade começou por dizer ser necessário “propor novos modos de estar na sala de aula. Os professores têm de trabalhar mais em equipa educativa. E há funções na escola que não cabem ao professor fazer. É preciso libertar e meter outros profissionais na escola para libertar os professores para o que realmente interessa: a preparação de aula”.

Já para José Sales, “a educação não pode esperar. Por isso é preciso pegar naquilo que há e dar mais horas de formação. Sem isso não evoluímos e vamos ter professores sem energia e sem tempo, apesar de saberem como resolver as coisas”, afirmando ainda que “devido às nossas características culturais, tenho dificuldade em acreditar na criação de um plano nacional de formação. Acima de tudo temos de entender que o perfil do docente no futuro vai basear-se nas competências digitais que ganham como cidadãos. E que os Sindicatos são uma força aceleradora na questão da formação, que será sempre algo vital para a profissão docente”.

Na opinião de José Sales, mesmo que exista regulamentação e regulação legal e legislativa, mesmo que as instituições de ensino detenham uma plataforma ajustada às suas necessidades, e mesmo que a questão do modelo de ensino esteja discutido e assumido, torna-se indispensável que os professores conheçam bem a plataforma e tenham adquirido (antes e depois das atividades) competências tecnológicas e, o mais importante, que tenham maturidade para encarar de forma séria e participativa o desafio do ensino a distancia online ou semi-presencial: “Sem os professores, nada feito. A peça nuclear nesta equação é a formação docente”.

A fechar, o moderador Pedro Barreiros recordou a capacidade de adaptação dos professores portugueses na pandemia, até na questão da formação, “pois nunca houve tanta procura por formação como agora”, deixando ainda a mensagem de que “é preciso permitir mais tempo ao professor para este cumprir o seu papel e para haver um espaço próprio para a formação”.

Consulte aqui o documento apresentado por Rui Trindade no Webinar

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